domingo, 14 de setembro de 2008

A Invenção do Amor

Li “A Invenção do Amor” de Daniel Filipe pela primeira vez, devia ter os meus 17 anos e devia estar apaixonado.
Na época, frequentavam-se, bares e jardins, para ler poemas, sobretudo os proibidos, reparem bem, poemas….
Nada sabíamos de política, mas sua insustentável fragrância, misturava-se com os sons de “A trova do vento que passa”, das baladas do Zeca, do Fanhais, do Zé Mário e de uns tantos mais…
Passavam-se livros às escondidas, livros lidos numa passada, porque havia mais clientes ávidos, para se descobrirem naquelas páginas meias rasgadas.
O Prof. que os arranjava morria de medo que se soubesse, olhem aqui esta um, com poemas de Agostinho Neto, Alexandre Daskalos, Alda Lara, António Boto e tantos outros…
Como sabia bem comer aqueles versos, ao entardecer nas escadas do monumento ao Norton de Matos, bem na frente do palácio do Governador, o local mais seguro, claro está, ali não se faziam revoluções…
Eu morava ali ao lado, num velho casarão cheio de livros, portas meias com uma velha fábrica de moagem de farinha, cenário surrealista, com correias gigantes, enormes roldanas, restos de farinha por todo o lado.
Penetrava por ali, para me manter perdido, pela imaginação emprestada, dos livros que devorava.
Por ali desenrolava excitantes aventuras, dum Rocambole sem fim e também me lambuzava, nas que me forneciam, Leon Tolstoi, Alexei Tolstoi, Máximo Gorki, Boris Pasternak, Dostoiévski...o sonho era quem mais ordenava, naqueles tempos perdidos.
Tão perdidos, que a praça desapareceu a cidade desfez-se, o País não passa duma courela de caciques e petroleiros funestos… o Povo, esse imenso inocente, qual boi manso, espera a oportunidade de o ser…
Para ouvir alguns poemas de Daniel Filipe.

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